Foto: Floriano Lima
Entrevista com o físico Reginaldo Farias sobre o livro "Reflexões sobre a Ciência"

O professor Reginaldo de Jesus Costa Farias, doutor em Física e docente da UEAP do Colegiado de Engenharia Química, é um dos organizadores do livro "Reflexões sobre a Ciência: diferentes perspectivas", que reúne 12 pesquisadores de diversas áreas do conhecimento, dentre Física, Letras, Artes, Medicina e Psicologia. Reginaldo acredita que o Reflexões sobre a Ciência é o primeiro livro acadêmico a reunir pesquisadores tanto do extremo-norte quanto do extremo-sul do Brasil, um país de dimensões continentais com diferenças culturais profundas entre suas regiões.

Num dos seus artigos, o pesquisador traça um paralelo entre as etapas que levaram à criação da Teoria da Relatividade e a vida do autor, Albert Einstein, considerado um dos símbolos máximos do gênio científico. Para Farias, a mídia popularizou uma fantasia acerca do trabalho dos cientistas que, levada ao paroxismo, conduz a crenças que ignoram  o contexto histórico e  político como fundamentais de uma descoberta. Para Farias, essa visão leva a atividade científica a um segundo plano, menos importante do que a própria imagem do cientista, como se fosse uma ação individual.

Confira abaixo a entrevista com o autor e organizador.

 

- Qual foi a data de lançamento do livro e onde ocorreu?

Dr. Reginaldo Farias: O livro foi editado pela CRV, editora acadêmica de Curitiba, impresso ano passado sem nenhum lançamento oficial porque não tínhamos recursos para isso. Mas a CRV tem quase todas as suas publicações avaliadas como L3 e L4, e esse foi o motivo pelo qual nós a escolhemos.

 

- Como você conseguiu reunir todos esses pesquisadores para este livro?

RF: Antes de vir para a UEAP, eu tive um trânsito razoável por outras universidades brasileiras. Na minha graduação, na UFPa, fui aluno de um dos autores, o professor Bassalo. Depois que saí do Pará, passei doze anos da minha carreira em São Paulo, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e na Universidade de São Paulo (USP), depois no Centro Paula Souza (que gerencia as faculdades de tecnologia de SP) e depois como professor da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

Pesquisadores como Dennis Bessada foram meus colegas, assim como a Thaís Forato. Conheci a Profa. Simone Walckoff, a outra organizadora do livro, Instituto de Psicologia da USP. A Anna Brengel e Fernando Broggiato têm passagem pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Dulce Critelli é professora da PUC-SP. Maurício Pietrocola é professor da Faculdade de Educação da USP. Calil é graduando na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Acioli é professor da Universidade Católica de Pernambuco. Todos esses pesquisadores são pessoas que nós tivemos o prazer de conhecer durante esse trânsito acadêmico.

Essa reunião se deveu principalmente a esse trânsito, que eu julgo salutar, pelo meio acadêmico. Você tem que conhecer outros centros de pesquisas. Você tem que, enquanto pesquisador, amadurecer – e esse amadurecimento precisa desse contato que você deve manter com outros pesquisadores.

 

- O que motivou a criação de Reflexões sobre a Ciência?

RF: A motivação desse livro se deu por algumas inquietações que tanto eu como a Simone Walckoff tivemos há cerca de três anos a respeito da ciência e da produção do conhecimento científico. Depois de diversos debates, que começaram sem muita pretensão, nós resolvemos convidar pesquisadores para compor essa obra.

Esses pesquisadores que escreveram esse livro abrangem diversas áreas do conhecimento humano: há físicos, psicólogos, médicos, artistas. Portanto, você tem diversos professores de áreas distintas, cada um deles colocando a sua visão sobre ciência.

O interessante é que, talvez pela formação que nós tivemos – a professora Walckoff que é do sul do país, e eu que sou amazônida - tínhamos as nossas referências e os professores de graduação que nos influenciaram, e nós observamos bastantes pontos em comum e outros bem distintos. Isso nos chamou atenção e nos trouxe para esse convite que se estendeu a todos esses pesquisadores. Até onde sabemos é a primeira obra acadêmica que reúne pesquisadores tanto do extremo-sul do Brasil, caso do Dennis Bessada, quanto aqui do setentrião brasileiro, como eu, daqui da Universidade do Estado do Amapá.

 

- No livro um de seus artigos é sobre desmitificar a noção do gênio hoje em dia. Você pensa que, principalmente nós da mídia, cometemos exageros quando falamos desse assunto?

Sim, com toda a certeza. Esse conceito criado sobre a suposta genialidade é muito perigoso para a formação dos nossos alunos. E eu não falo só sobre a graduação, falo também na formação básica. Você tem um clamor por achar ou por dizer que tem algum aluno que é melhor ou que é genial , e isso não é verdade. Isso está atrelado a diversas condições, que vai desde o que se fornece de estrutura a uma criança em termos socioeconômicos, até mesmo a criação.

Você tem diversos exemplos de supostos gênios na humanidade em que não se olha para o esforço que essa pessoa fez, não se olha para as condições que ela teve, tampouco para os coautores que ela teve. O exemplo que nós tomamos no livro foi o Albert Einstein, fizemos esse debate porque ele é uma figura que a mídia de alguma maneira tomou como um símbolo da genialidade. Fizemos um apanhado da biografia oficial dele e de parte do cânone einsteniano no Brasil, e ele é sempre apresentado como gênio, mas pouco se fala sobre a produção e de todo o esforço que está envolvido por trás dessa produção e de suas coautorias.

As contribuições de Einstein para a ciência são inegáveis, mas há por trás disso tudo um esforço quase que monástico de pesquisa, de embasamento e comparações com a experimentação, um contexto histórico e político que é deixado de lado para lançar luz apenas sobre um suposto lado romântico da pesquisa. A mídia não explora o outro lado, não mostra que fazer ciência não é uma atividade romântica, não é uma produção linear e muito menos individual.  A produção científica é uma atividade conjunta e sempre política, no sentido arendtiano da palavra.

Publicado em: Quinta-feira, 09 de Março de 2017 por Assessoria de Comunicação - ASCOM
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